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Bernardo Carneiro: meios de pagamento e a mobilidade urbana

Ilustração de duas pessoas com uma cidade ao fundo. Ao lado está escrito "O impacto das formas de pagamento no mercado da mobilidade urbana".

Conversamos com Bernardo Carneiro, um dos empreendedores da Stone para entender a relação entre os meios de pagamento e o mercado de mobilidade.

Temos debatido muito nos últimos meses o tema dos meios de pagamento no mercado da mobilidade.

Podemos citar os conteúdos sobre Pix, PicPay, WhatsApp Pay e os novos meios de pagamentos nos aplicativos gerados com a tecnologia da Machine.

Mas, afinal, por que esse tema é tão importante?

Para entender essa ligação, conversamos com Bernardo Carneiro, sócio-diretor da Stone, a principal startup de tecnologia para meios de pagamento do Brasil.

“O pagamento exclusivamente no cartão de crédito acaba excluindo uma parcela da sociedade”

Quando pensamos em meios de pagamento, principalmente no mercado da mobilidade urbana, estamos falando de inclusão, comodidade e segurança.

Sobre inclusão, devemos olhar para uma parcela significativa da população brasileira que ainda não “digitalizou” seus meios de pagamento ou nem está bancarizada, como mostrou o processo de cadastro do auxílio emergencial.

Bernardo explica que a introdução das pessoas na dinâmica financeira é feita geralmente quando ela começa a trabalhar e precisa criar uma conta para receber seu salário.

“Quando isso acontece, a pessoa recebe um cartão de débito para pagar pela maquininha ou sacar no caixa eletrônico. Assim, só o fato de você não aceitar pagamento no débito, de forma online, já exclui uma parcela da população”.

Assim, ele recorda que já no início, muitos dos aplicativos de transporte possuíam a opção de pagar na maquininha, direto com o motorista.

Porém, apesar de ajudar as pessoas que pagavam no cartão físico, essa solução “não era muito difundida”.

“Todos esses aplicativos cresceram significativamente na base de cartão de crédito online. Em seguida, houve todo um esforço para implementar o pagamento online com débito, mas ainda era muito restritivo. Então a Uber chegou e falou ‘está na hora de implementar o pagamento em dinheiro’ e aí veio a avalanche”.

Bernardo explica que a partir desse momento, a Uber conseguiu atingir uma outra classe social, crescendo muito na periferia e em municípios do interior do país.

Assim, apesar de alguns apps (não só de transporte, mas também de delivery)“pressionarem” para acabar com o pagamento em dinheiro, é inviável em certos locais, pois há muitas pessoas que ainda não foram totalmente incluídas no sistema financeiro.

“Onde ela anda, essa pessoa encontra muitas vezes locais que não aceitam cartão, então ela precisa pagar em dinheiro (…) isso sem falar quando ela quer comprar online e não tem a opção de pagamento no débito, fazendo com que ela precise pagar no momento da entrega ou no boleto”.

Porém, nessa relação, nem tudo são flores.

Os perigos do pagamento em dinheiro no transporte por aplicativo

Segundo a 99, 70% de suas corridas são pagas com dinheiro físico.

Já na Uber, globalmente, 13% das corridas foram pagas dessa forma em 2018.

No Brasil, como em outras localidades da América Latina, Europa, Oriente Médio e África, há um caso à parte, em que o pagamento em dinheiro físico é essencial para a população.

Porém, segundo a própria Uber, o uso de dinheiro pode aumentar os riscos de segurança e proteção para motoristas e passageiros, incluindo possíveis roubos, assaltos, ataques violentos ou fatais, além de outros atos criminosos.

“Em certas jurisdições, como no Brasil, foram relatados sérios incidentes de segurança que resultaram em roubos e ataques violentos ou fatais a motoristas durante o uso de nossa plataforma. Se não formos capazes de tratar adequadamente qualquer uma dessas questões, podemos sofrer danos significativos à nossa reputação, o que pode impactar adversamente nossos negócios”, diz um documento da empresa para sua abertura de capital.

Mas o que as empresas podem fazer para incentivar os meios de pagamento online?

Para Bernardo, os aplicativos de mobilidade urbana devem ter como exemplo os grandes e-commerces e disponibilizar o maior número possível de meios de pagamento.

Segundo ele, é importante que as empresas sigam atentas às inovaçõesdo mercado, fazendo com que o cliente possa encontrar a mesma forma de pagamento de uma grande rede de loja também no seu app de transporte favorito.

“Acho que a introdução de determinadas carteiras digitais nos apps pode ser um processo construtivo, em especial o PicPay, que tem penetrado em uma classe social que usa dinheiro. Além disso, há a importância de ter um pagamento via Pix, algo que nós na Stone conseguimos implementar já no primeiro dia, tanto na maquininha quanto no pagamento online com o Pagar.me”.

Por fim, Bernardo aponta que empresas de tecnologia para mobilidade urbana devem introduzir os pagamentos online, como uma forma de melhorar a experiência do cliente.

“No final, diminuir a circulação de dinheiro físico é um benefício para sociedade. Afinal, o papel-moeda é caro e, em tempos de pandemia, não é nada recomendável fazer essa troca de dinheiro. Isso sem falar da insegurança para o motorista, que acaba tendo que fazer esse ‘papel de caixa eletrônico’ e circular com o dinheiro em mãos”.